IMIGRAÇÃO ALEMÃ - A Tradição da Água Pascal: Osterwasser


Toni Jochem
Historiador

        O ciclo da Páscoa é rico em tradições de base religiosa. Elas fazem parte da cultura e se enquadram no que poderíamos denominar de patrimônio cultural imaterial. As mais diversas etnias comemoram o ciclo pascal de formas diferentes e com significados peculiares. Entre essas tradições, o professor Francisco Schaden, em seu livro “Notas para a História da Localidade de Löffelscheidt”, escrito em 1943 e publicado três anos depois, à página 29, descreve a Osterwasser– Água Pascal – mantida entre a população da localidade de Löffelscheidt, em Águas Mornas, em Santa Catarina.

        Löffelscheidt constitui-se numa das localidades  da Colônia Alemã Santa Isabel sendo fundada em 1847 por imigrantes oriundos, em sua maioria, da região do Hunsrück, localizada entre os Rios Reno e Mosela.

        Francisco Schaden era alemão e literalmente apaixonado pela história da imigração/colonização; nasceu em Leipzig em 1891. Chegou ao Brasil em 1910 e logo em seguida mudou-se para Löffelscheidt onde passou a atuar como professor da escola local. Depois mudou-se para a localidade de São Bonifácio exercendo a mesma profissão. Testemunha ocular e bem informado, Schaden escreve suas “Notas” três décadas depois com destacada propriedade. Consideradas de grande valor histórico entre outros assuntos é registrada a tradição alemã denominada Água Pascal –Osterwasser– nos seguintes termos:

 
        “No dia de Páscoa é costume tirar do regato, antes do nascer do sol, a ‘água pascoal’, a que se atribui a virtude de dar saúde e beleza. A seguir, espera-se ansiosamente até que nasça o sol, para ver como este dá três pulinhos logo depois de aparecer no horizonte. Há mesmo quem afirme ter observado o fenômeno”.

        A água é símbolo de purificação cristã e, recolhida da nascente na madrugada da Páscoa – Osterwasser – adquiria um poder especial sendo, dessa forma, considerada sagrada. Com o seu uso, purificava-se de todo pecado.

        Assim, acreditava-se que a água coletada nesse dia e nessas circunstâncias protegia contra males e doenças, além de proporcionar beleza física, principalmente para as moças. Para tanto, elas, as moças, que lavassem seu rosto com a água pascoal teriam beleza e juventude garantidas. Por isso, não raras vezes o precioso líquido assim que recolhido da fonte era cuidadosamente acondicionado em uma garrafa e usado não raramente, inclusive como remédio, pela população.

        Essa tradição que chegou a Löffelscheidt com os imigrantes que professavam a religião católica evidenciou-se também em outras regiões do Brasil e tem certas peculiaridades; como mencionamos, afirma-se que a “água pascal”tem o poder de manter a beleza, a saúde e garantir um bom casamento para as moças solteiras.

        Diz a tradição que as moças no ritual da coleta da água no regato, não podem olhar para trás nem serem surpreendidas por rapazes, durante a atividade, para que a água não perdesse o seu valor sagrado.

        É interessante observar que Schaden também escreveu suas “Notas sobre a localidade de São Bonifácio”, publicadas em 1940; entretanto, nelas não registra a tradição do Osterwasser naquela localidade.

        Passados quase 70 anos do registro efetuado por Schaden da tradição do Osternwasser em Löffelscheidt, observa-se que o tempo também exerce sua influência sobre a tradição cultural. E, segundo M. Moura-Pacheco, por ser tradição cultural,

 
transita no tempo, de geração para geração, adaptando-se ao tempo, a novas solicitações e motivações, mudando por isso, a sua forma. Assim, a tradição não é rígida nem fixista: é evolutiva”.

        E, essa transição poderemos observar abaixo. Hoje tal costume como descrito por Schaden é raramente observado não só na localidade de Löffelscheidt mas em toda a região que lhe é contígua e ainda há quem afirme ter presenciado os tais pulinhos do sol no horizonte no amanhecer do dia da Páscoa.

        Com relação ao costume de “tirar do regato, antes do nascer do sol, a ‘água pascoal’”, mencionado por Schaden, também não se verifica atualmente com freqüência. Ao menos raramente no Domingo de Páscoa.

        Hoje é costume fazer peregrinação a pé com destino a locais de devoção como, por exemplo, a  Grutas em louvor a Nossa Senhora, num percurso que as vezes ultrapassa a trinta quilômetros de extensão. Lá, nas primeiras horas da manhã na Sexta-Feira Santa, diante da imagem de Nossa Senhora agradecem as graças alcançadas e recolhem água em recipientes especialmente para tal fim destinados. A essa água também são atribuídas poderes especiais e, dessa forma, é considerada sagrada e utilizada a partir de então.

        Pelas semelhanças apresentadas, talvez essa tradição hoje observada na Sexta-Feira Santa no município de Águas Mornas e  imediações tem sua origem na Osterwasser trazida pelos imigrantes e registrada por Schaden em Löffelscheidt.

Abaixo fotografias sobre a Osterwasser extraídas da internet as quais, de certa forma, ilustram a centenária tradição trazida pelos imigrantes alemães para a localidade de Löffelscheidt.


Fonte: http://www.tlz.de/web/zgt/kultur/detail/-/specific/Wunder-Wasser-der-Fruehlingsgoettin-Ostara-413255830


Fonte: http://www.historisches-franken.de/osterbrunnen/waschen.htm


Fonte: http://weltempfaenger.wordpress.com/tag/europa/


Fonte: http://www.lr-online.de/regionen/Wenn-die-Maedchen-Osterwasser-holen;art96089,3314925,B::pic87249,1970768

 

BILBIOGRAFIA

Moura-Pacheco M. In: Semanário Católico “A Ordem”. Disponível em http://interregno.blogspot.com/2008/03/tradio-e-cultura.html - Acesso em 17 abril 2011.

Osternbräuche. Disponível em http://folcloreconcordia.blogspot.com/2011/04/osternbrauche.html - Acesso em 15 abril 2011.

Pomerode realiza Osterfest, festa que celebra a Páscoa. Disponível em http://webcache.googleusercontent.com  - Acesso em 15 abril 2011.

SCHADEN, Francisco. Notas para a História da Localidade de Löffelscheidt. São Bonifácio: Ed. do Autor, 1946.

SCHADEN, Francisco. Notas sobre a localidade de São Bonifácio. Florianópolis: S/e, 1940.