EIERKIPPEN: Uma Tradição da Páscoa

(05/04/2012)

Toni Jochem
Historiador

        O ciclo da Páscoa é rico em tradições. Elas fazem parte da cultura e se enquadram no que poderíamos denominar de patrimônio cultural imaterial. Esse ciclo integra um ritual de passagem, assim como a "passagem" de Cristo, da morte para a vida.

        As mais diversas etnias comemoram o ciclo pascal de formas diferentes e com significados peculiares. Entre essas tradições, o professor Francisco Schaden, em seu livro “Notas para a História da Localidade de Löffelscheidt”, escrito em 1943 e publicado três anos depois, à página 30, descreve a EIERKIPPEN – batida de ovos – mantida ainda na década de 1940 entre a população da localidade de Löffelscheidt, em Águas Mornas, Santa Catarina.

        Löffelscheidt constitui-se numa das localidades  da Colônia Alemã Santa Isabel, fundada em 1847 por imigrantes oriundos, em sua maioria, da região do Hunsrück, localizada entre os Rios Reno e Mosela.

        Francisco Schaden era alemão e literalmente apaixonado pela história da imigração/colonização; nasceu em Leipzig em 1891. Chegou ao Brasil em 1910 e logo em seguida mudou-se para Löffelscheidt onde passou a atuar como professor da escola local. Depois mudou sua residência para a localidade de São Bonifácio onde exerceu a mesma profissão. Testemunha ocular e bem informado, Schaden escreve suas “Notas” três décadas depois, com destacada propriedade. Consideradas de grande valor histórico entre outros assuntos é registrada, ainda que em poucas palavras, a tradição alemã denominada batida de ovos – Eierkippen – nos seguintes termos:

 
"As crianças conhecem igualmente o costume denominado Eierkippen, em que as mais espertas empregam ovos de galinhas de Angola, de casca mais resistente"[1].

        Eierkippen significa literalmente: Ei = ovo;  Eier = ovos; kippen = (tem vários significados, dentre eles o de desequilibrar, virar, bater, quebrar, etc.). Dessa forma, podemos entender que a Eierkippen seria uma confraternização pascal, geralmente em âmbito familiar, formatada em forma  de jogo/brincadeira/competição, onde duas pessoas, cada uma segurando nas mãos um ovo pintado/tingido o empurra, bate (de leve), pressionando-o contra o ovo que igualmente está sendo segurado pelo adversário. Um ovo rachado/quebrado/trincado dos dois lados exclui imediatamente o participante. Se existirem dois adversários ou mais, o vencedor é aquele que após enfrentar a todos, é o único a possuir um ovo com uma ponta intacta.

        Segundo Marília Marx Jordan, residente em Saint Blaise, na Suíça, a tradição da Eierkippen pode ser assim descrita com relação à sua característica configuração:

 

“Na Suíça, em todo caso em sua parte francesa, esta tradição faz parte integrante do café da manhã do domingo de Páscoa em toda família em que há crianças.
Se os ovos foram pintados/tingidos pelos familiares ou já comprados cozidos e coloridos no supermercado não tem a menor importância. Se antes foram escondidos para serem encontrados pelas crianças ou simplesmente colocados diretamente em cima da mesa também é irrelevante. De qualquer forma eles – os ovos – são colocados dentro de uma cesta no centro da mesa do café da manhã. A tradicional competição tem seu início quando todos estiverem sentados à mesa tendo, geralmente, as seguintes regras a serem seguidas:
1. Cada membro da família escolhe um ovo e em seguida seu adversário. Numa mesa com crianças e adultos, são elas que escolhem os adversários e começam o jogo. Numa mesa integrada somente com crianças não se observa essa regra e são geralmente os mais espertos que iniciam a competição.
2. Vários pares de adversários podem começar simultaneamente a competição.
3. Aquele que ‘ataca’ deve usar sempre o lado pontudo do ovo enquanto aquele que é atacado deve apresentar o lado arredondado do mesmo.
4. Após o primeiro ataque, o mesmo par de adversários se enfrenta outra vez, sendo que o atacado se transforma em atacante.
5. Se existirem apenas dois adversários, ganha aquele cuja ponta do ovo permaneceu intacta. Se existem mais pessoas, o jogo continua e os participantes trocam de parceiros.
6. Um ovo quebrado dos dois lados exclui imediatamente o participante, que pode então comê-lo ou deixá-lo de lado para ser consumido mais tarde.
7. O vencedor é aquele que após enfrentar todos, é o único a possuir um ovo com uma ponta intacta. Não existe prêmio além do prazer/satisfação de saber que seu ovo é o ‘mais forte ou o mais resistente’ de todos os apresentados na competição.

Os ovos que não foram consumidos pelos participantes após a competição terminam na salada “dent de Lion” (erva daninha que aparece na primavera) constituindo-se num prato tradicional do almoço no dia de páscoa” [2].

       De acordo com Márcio S. da Costa, ovos coloridos simbolizam a alegria da vida e estes significam a Ressurreição do Senhor. O ovo quer significar a vida que há potencialmente dentro dele e que dali brota, apesar de que ela – a vida – está escondida até o momento em que a ruptura acontece. Dentro do ovo está a vida nova que surge[3], complementa. O ovo da Páscoa pode ser considerado como um símbolo do Redentor fechado dentro de um túmulo e a sua batida, uns contra os outros, deve significar a Ressurreição, o despertar incontido da vida que há dentro do ovo[4]. Significa o renascimento do homem havendo também a possibilidade de identificá-lo “com o túmulo de onde se soergueu Cristo”[5]. Quanto ao fato e às cores utilizadas no tingimento dos ovos acredita-se que,

 
 “ao colorir os ovos, pensou-se talvez no sangue de Cristo ao se usar a cor vermelha, mas nas muitas outras cores pensou-se provavelmente no novo enfeite da primavera: as flores”[6].

        Como vimos, Schaden registra que em Löffelscheidt as crianças mais espertas se utilizavam durante a Eierkippen de “ovos de galinhas de Angola, de casca mais resistente"[7]. Dessa esperteza em se utilizar de ovos de galinha de Angola contra os de galinha comum, certamente resultava o sucesso em quebrar/trincar/rachar o ovo do adversário, sagrando-se o vencedor da tradicional competição. Assim, da região do Hunsrück a tradição do Eierkippen chegou a Löffelscheidt onde foi registrada na década de 1940.

        Essa tradição da Eierkippen é encontrada em muitas regiões da Alemanha e imediações podendo se fazer presente com diversas  denominações. Assim, por exemplo, a mencionada tradição pode ser encontrada registrada como  “Oarhiartn“ (Eierhüten), Oiastoußn“ (Eierstoßen), Oiaboxn“ (Eierboxen), Oiapecken“, “Eierpicken, “Eierditschen“, ou  Oierhiartn“ (Eierhüten)[8] dentre outras formas. Entretanto, ressaltamos que a essência da tradição é a mesma: competição com ovos cozidos e tingidos realizada no dia da Páscoa e em função dela.

        Abaixo, algumas fotografias disponibilizadas na internet sobre a tradicional confraternização pascal denominada Eierkippen batida de ovos em algumas regiões na Alemanha que, de certa forma, visualiza o rico ciclo da Páscoa e suas tradições:


Fonte: http://www.flickr.com/photos/ingridworks/5649350001/


Fonte: http://de.wikipedia.org/w/index.php?title=Ostereiertitschen&oldid
=100938130


Fonte:  http://www.wz-newsline.de/lokales/krefeld/eierkippen-in-uerdingen-1.301842?page=3&showThumbnails=false


Fonte: http://www.wz-newsline.de/lokales/krefeld/eierkippen-in-uerdingen-1.301842?page=3&showThumbnails=false



NOTAS DE FIM

[1] SCHADEN, Francisco. Notas para a História da Localidade de Löffelscheidt. São Bonifácio: Ed. do Autor, 1946, p. 30.

[2] JORDAN, Marília Marx. Publicação eletrônica [mensagem pessoal]. Mensagem recebida por (toni@tonijochem.com.br) sob o título “Costumes da Páscoa”, em 03 abr. 2012.

[3] COSTA, Márcio S. da. Der Osterbaum A Árvore da Páscoa. Disponível em http://www.luteranos.com.br/202/
mensagem/2003-mar3.htm
Acesso em: 26 mar. 2012.

[4] MENZEL Wolfgang. Christliche Symbolik. Regensburg: Verlag von G. Joseph Manz, 1854, Seite 175-180, traduzido por Renate Adolfs.

[5] A tradição dos Ovos da Páscoa. Disponível em http://prosimetron.blogspot.com.br/2009/04/tradicao-dos-ovos-da-pascoa.html Acesso em: 03 abr. 2012.

[6] MENZEL Wolfgang. Christliche Symbolik. Regensburg: Verlag von G. Joseph Manz, 1854, Seite 175-180, traduzido por Renate Adolfs.

[7] SCHADEN, Francisco. Notas para a História da Localidade de Löffelscheidt. São Bonifácio: Ed. do Autor, 1946, p. 30.

[8] Cf. Ostereiertitschen. Disponível em http://de.wikipedia.org/w/index.php?title=
Ostereiertitschen&oldid=100938130
Acesso em: 26 mar. 2012.